Contratos milionários e suspeitas de favorecimento marcam gestão na São Paulo Turismo

A São Paulo Turismo (SPTuris) está no centro de questionamentos envolvendo a renovação de contratos de terceirização de mão de obra que somam cerca de R$ 210 milhões. As prorrogações ocorreram na atual gestão do presidente da empresa, Gustavo Pires, e teriam sido fundamentadas em pesquisas de mercado realizadas com empresas que mantêm vínculos diretos ou indiretos com a Agência Quarter, beneficiária dos contratos.

De acordo com as informações levantadas, a Quarter possui atualmente 11 contratos vigentes com a SPTuris e com a Secretaria Municipal de Turismo. Para a renovação desses acordos, a legislação exige a realização de pesquisa de mercado, etapa destinada a comprovar que os valores praticados permanecem compatíveis com os preços do setor. No entanto, em dez dessas renovações, a cotação comparativa foi feita com a VM Produções e Eventos, empresa ligada a Victor Correia Moraes.

Victor, conhecido no mercado como “Vitinho”, é funcionário da própria Quarter — fato confirmado pela assessoria da agência — e irmão de Marcelo Correia Moraes, apontado pela SPTuris como contato institucional da Quarter e diretor de operações da empresa. A relação familiar e profissional entre os dois é amplamente conhecida no setor de eventos e turismo.

Além da VM Produções, outra empresa frequentemente utilizada como referência nas pesquisas de preço é a Oleiro, pertencente a Claudete Santos. Ela atua como principal coordenadora da Quarter, sendo responsável por selecionar e liderar equipes de guias turísticos em grandes eventos realizados na capital paulista, como a Fórmula 1 e o Carnaval de São Paulo.

A repetição de cotações com empresas interligadas levanta questionamentos sobre a efetividade das pesquisas de mercado realizadas para justificar as renovações contratuais sem licitação. Especialistas em administração pública destacam que a finalidade desse procedimento é justamente assegurar competitividade e transparência, evitando distorções de preços ou direcionamento de contratos.

Outro ponto que chama atenção é a estrutura societária da Quarter. A agência está formalmente registrada em nome de uma mulher que, segundo apurado, teria obtido lucro milionário recente, mas continuaria residindo em condições modestas na zona norte da capital. Conforme relatos de fontes do mercado, a administração prática da empresa estaria concentrada nos irmãos Victor e Marcelo Moraes, ainda que eles não figurem oficialmente como proprietários.

A soma de indícios — vínculos familiares entre empresas cotadas, valores considerados superiores aos praticados por outros concorrentes e a manutenção reiterada dos contratos — tem provocado debate sobre governança e compliance na gestão da empresa municipal. A SPTuris, responsável por organizar e promover eventos estratégicos para a cidade, desempenha papel central na movimentação econômica do setor de turismo paulistano.

Até o momento, a renovação dos contratos segue respaldada nos processos administrativos internos. No entanto, a repercussão do caso amplia a pressão por maior transparência na condução das contratações públicas, especialmente diante de cifras elevadas e da relevância institucional da empresa.

O episódio reacende discussões sobre mecanismos de controle, fiscalização e boas práticas na administração municipal, em um setor que movimenta milhões de reais e tem impacto direto na imagem da cidade.